OLAVO BILAC
TRABALHO FEMININO
O sábado, em que está sendo escrita esta crônica, arrasta-se aborrecido e pesado, numa enxurrada de lama, sob o açoite frio dos aguaceiros, cheio de uma melancolia que nada pode dissipar. Oh! estes dias de chuva! Deus sabe quanto suicídio tem por causa a sua fúnebre tristeza…
Deixando cair o livro que lia, o cronista levantou-se, abriu a janela, lançou um olhar entediado ao céu e à rua.
Que céu e que rua! Em cima uma planície cinzenta, manchada aqui e ali de nuvens mais escuras, que crescem, estendem-se em cargas-d’água barulhentas e grossas. Embaixo, lama e deserto… Os bondes que passam trazem as cortinas abaixadas, lustrosas de chuva, bambas, ao áspero vento que as sacode. E não se vê ninguém… Quem há que se atreve a afrontar a dureza desta úmida manhã, toda de. choro e enfaro.
Mas não… Lá vem, cosido à parede, um vulto apressa¬do. É uma mulher. Mais perto agora, distinguem-se-lhe as feições, as roupas encharcadas, sob o puído guarda-chuva gotejante. A borrasca envolve-a, agasta-a, enraiva-se sobre ela, com uma crueldade implacável. A velha saia preta, colada às pernas, vem barrada de lama; os sapatos chapi¬nham nas poças da água; e sempre cosida à parede, car¬regando um grande embrulho, tossindo e tremendo de frio, lutando contra a ventania furiosa, lá se vai a pobre — fan¬tasma da pobreza, vítima de uma dura sorte, em busca do pão com que há de alimentar os filhos pequenos, e, quem sabe? talvez também um marido malandro, que fica, no calor da alcova, contando as tábuas do teto e fumando, enquanto a mísera tirita pelas ruas alagadas…
Em geral, nós, que só conhecemos as senhoras da nossa roda, pensamos que todas as mulheres são melindrosos alfenins que qualquer trabalho fadiga. Mas as que conhece¬mos são as flores humanas, cuidadosamente criadas na estufa da civilização; são uns encantadores e estranhos ani¬mais, metade anjos, metade demônios, tão sedutores e amáveis quando abusam da sua influência celestial como quando abusam da sua influência satânica… Essas são as que nasceram para ser servidas e adoradas, como santas em nichos de ouro e prata, cobertas de alfaias e de jóias.
Mas, por uma dessas, quantas mil existem que são a providência doméstica, o amparo [*.**] da família [****] que as formigas, mais infatigáveis do que as abelhas, mourejando da primeira luz do dia às horas cerradas da noite, entisicando sobre a máquina de costura, perdendo as forças sobre a tábua de engomar, tisnando a pele junto das chamas do fogão!
Ninguém pensa nisso… Só, de quando em quando, um cronista melancólico, levado pela própria tristeza a cuidar das tristezas alheias, demora a atenção sobre a dureza da vossa negra sorte — ó mulheres pobres, que sois tão mais fortes do que nós, na moral como no físico!
Ainda não há três dias publicava A Notícia esta local: "Pela primeira vez, foi enviado ao Ministério da Fazen¬da um requerimento de uma senhorita pedindo para ins¬crever-se [***] concurso, a fim de exercer um emprego [***] Fazenda.
"Esse requerimento foi à diretoria do contencioso, a fim de ser informado, e combateu a pretensão, pelo que o sr.ministro da Fazenda resolveu indeferir o mencionado requerimento."
Ora, as leis humanas não podem ter a infalibilidade que a Igreja atribuí às leis divinas. A sociedade não pode sujeitar-se ao império de uma lei absurda, somente porque ela é uma lei.
Sempre que se agita esta questão das reivindicações femininas, escovam-se e [***] os velhos chavões, e, com um grande ar de importância, os filósofos decidem sem apelação que a mulher não pode ser mais do que o anjo do lar, a vestal encarregada de vigiar o fogo sagrado, a depositária das tradições da família… e das chaves da despensa. Todo esse dispêndio de palavras inúteis serve ape¬nas para encobrir a fealdade da única razão séria que podemos apresentar contra as pretensões das mulheres: o nosso egoísmo, o receio que temos de que nos despojem das nossas prerrogativas seculares — o medo de perder as posições, as regalias, as honras que o preconceito bárbaro confiou exclusivamente ao nosso século. Compreende-se: quem se habituou a empunhar o bastão do comando não se resigna facilmente a passá-lo a outras mãos: é mais fácil deixar a vida do que deixar o poder.
Por que não há de a mulher poder exercer "um emprego da Fazenda"? Que há de misterioso e sagrado de recôndito e impenetrável no exercício dessas funções que, não possa ser devassado e apreendido pelo espírito de uma mulher?
Amar o próximo e praticar o bem, praticar a caridade nos hospitais de sangue e nos asilos civis., educar crianças — são tarefas infinitamente mais sérias do que alinhar algarismos em livros, calcular taxas de cambio, aplicai tarifas e computar perdas e ganhos. É pois preciso ter o cérebro de um Dante, de um Comte, de um Bacon, para poder trazer e>m dia o livro do protocolo de uma repartição pública ou para saber somar quatro colunas de algarismos?
Entretanto, que bela experiência a tentar! O espírito da mulher tem sobre o nosso uma incontestável superioridade: não é feito, como o nosso, de imaginação, de poder criador, de invenção; é feito de bom senso, de prudência de tenacidade, de paciência. Já alguém escreveu que "a mulher que dedicasse à execução de um plano financeiro a inteligência minuciosa e clara que costuma dedicar à execução de um complicado plano de toalete, desbancaria talvez os melhores economistas do mundo".
Em bom senso, não as vencemos, como não as vencemos em economia.
Se todos quisessem ser sinceros, ou antes se não quisessem enganar a si mesmos, quantos homens confessariam que os melhores atos de toda a sua existência foram inspi¬rados no recesso do lar, entre dois carinhos — nessas horas de intimidade em que as mulheres sabem influir sobre o nosso espírito sem mostrar o que estão fazendo, e cm que nós, inconscientemente, sem humilhações para o nosso desmarcado orgulho, vamos pouco a pouco adotando as suas idéias e abandonando as nossas, de maneira que, daí a pouco, exclusivamente parece nosso aquilo que é exclusiva¬mente delas!
Em economia, então — que abismo entre elas e nós!
Não se trata, está claro, destas lindas e adoráveis senho¬ras do grande clã, deusas deliciosas, cujas mãos perfumadas foram feitas apenas para dissipar o dinheiro…
Mas, nas casas pobres, que maravilhas de zelo, de poupança, de milagroso comedimento nas despesas! Não têm conta as donas de casa que reproduzem diariamente o milagre da multiplicação dos pães!
Quando rompe a manhã, já a abelha humana anda há uma hora zumbindo e trabalhando. Não há recanto da casa que escape à vigilância do seu olhar, não há providência que seja esquecida pela sua inteligência sempre alerta. Oh! o doce milagre! com um punhado miserável de dinheiro, é preciso alimentar os filhos, é preciso vesti-los, é preciso educá-los, é preciso consolar o marido e cercá-lo de con¬forto quando ele é infeliz, é preciso viver com decência… O trabalho não se faz sem lágrimas… A tarefa é rude, os pulmões se enfraquecem, calejam-se as mãos, vai-se a beleza, perdem-se as graças — mas a casa prospera… E. quando à noite, derreada e quase morta de cansaço, a heroína vai sentar-se junto à máquina Singer para dar conta do serão, uma doce auréola paira sobre a sua pálida cabeça de mártir do dever.
Ah! que orgulho o nosso! e não há homem que reco¬nheça esse sacrifício! e não há homem que deixe de atribuir à sua própria competência enfatuada a prosperidade e con¬forto que brotaram no seu lar, quando, quase sempre, esses doces frutos são devidos às lágrimas e às gotas de suor com que as mártires regaram o solo…
É singular! nega-se a quem é capaz de fazer tudo isso o direito de aspirar a um lugar de amanuense de secretaria! Mas, por todos os santos do Paraíso! se há uma lei que determina isso, revogue-se quanto antes essa lei absurda!
Abram-se às mulheres todas as portas! Porque, enfim, nós, os homens, já temos contribuído tanto para plantar na Terra o domínio da tolice e da injustiça — que não era mau saber se o outro sexo não é capaz de ter mais juízo do que o nosso!…
s. a.
Gazeta de Notícias 18/8/1901
quarta-feira, 22 de junho de 2011
segunda-feira, 20 de junho de 2011
VESTIBULANDO
O REI DA VELA - OSWALDO DE ANDRADE

O Rei da Vela constitui-se no texto teatral mais importante de Oswald de Andrade, publicado em 1937, representado em 3 atos.
A encenação desta peça marcou época na história do teatro brasileiro. Os protagonistas Abelardo I e Heloísa, ambos de tradição medieval. Abelardo I é um representante da burguesia ascendente da época que alia seu oportunismo à crise da Bolsa de Valores de Nova Iorque, de 1929. Isso permite-lhe todo tipo de especulação: ''com o café, com a indústria etc. A caracterização de Abelardo I como o "Rei da Vela" é extremamente irônica, pois ele fabrica e vende velas.
Abelardo I torna-se, então, o símbolo da exploração às custas da pobreza e das superstições populares. Como personagem, ele denuncia a invasão do capital estrangeiro; daí a irônica consideração sobre "a chave milagrosa da fortuna". Seus devedores se apresentam, na peça, dentro de uma jaula. Acontece uma cena em que são examinadas as contas dos clientes, dando idéia do funcionamento do escritório após uma cena que entra Heloísa de Lesbos, noiva de Abelardo I e como o próprio nome indica, tem tendências homossexuais.
Abelardo e Heloísa, nomes escolhidos por Oswald de Andrade, são dois famosos amantes da Idade Média, daí um tom de ironia na peça teatral.
Heloísa representa a ruína da classe fazendeira. Seu pai, coronel latifundiário, vai à falência, num plano em que predomina a perversão e o vício, símbolos de uma classe social em decadência.
Abelardo I e Heloísa casam-se. Heloísa casa-se por interesse e Abelardo I sabia disso, mas não se sente atraiçoado porque também vê vantagens nessa união. A aliança de Abelardo e Heloísa pode assim, representar a fusão de duas classes sociais corrompidas pelo sistema capitalista.
Surge na cena um intelectual chamado Pinote, que o autor utiliza para demonstrar a relação dos intelectuais e dos artistas com o poder. Na realidade, ou o artista deveria comprometer-se com o social ou, como o personagem Pinote, aceitar em servir aos burgueses.
Uma outra personagem vem a completar o quadro social do Brasil da época, o Mr. Jones, que simboliza o capital americano. A presença de Mr. Jones revela um país comprometido economicamente.
Logo no início do segundo ato, que agora passa-se numa ilha tropical na Baia de Guanabara, surge Heloísa e Mr. Jones em franca camaradagem amorosa. É apresentada a mãe de Heloísa, D. Cesarina que mostra-se bastante acessível às investidas amorosas de seu futuro genro, o Abelardo I; seu irmão homossexual, Totó Fruta-do-Conde, acaba roubando o amante da outra irmã, a Joana; restava ainda o Perdigoto, o outro irmão da moça, bêbado, jogador e fascista que planejava organizar uma "milícia patriótica, para combater os colonos que estavam ficando incontroláveis", idéia que muito interessou a Abelardo I.
O americano, Mr. Jones, interessa-se pelo chofer e D. Poloca uma velha de 60 anos aristocrata e virgem fica tentada a entregar-se a Abelardo I.
No último ato, Abelardo I é roubado por Abelardo II, seu antigo empregado. Abelardo I perde tudo o que tinha e decide suicidar-se. Antes de morrer lembra a Heloísa que ela deverá casar-se com o Abelardo II, o ladrão. Antes de morrer Abelardo I pede uma vela. Recebe uma vela das mais baratas e, agora pobre, o Rei da Vela é enterrado numa vala comum. A peça termina ao som da marcha nupcial do casamento de Abelardo II e Heloísa, simbolizando a idéia de que morre o homem e o sistema permanece. O casamento de Heloísa com Abelardo II garante que a burguesia está condenada e que os proletários tomarão o poder. A aristocracia rural e a burguesia nacional continuarão submetidas ao americano – o capital estrangeiro.
Após a morte de Abelardo I o entra em cena e fala: "Oh! Good business!"
Fonte: http://pt.shvoong.com/entertainment/plays/1658588-rei-da-vela/#ixzz1PpyJ4fsm

O Rei da Vela constitui-se no texto teatral mais importante de Oswald de Andrade, publicado em 1937, representado em 3 atos.
A encenação desta peça marcou época na história do teatro brasileiro. Os protagonistas Abelardo I e Heloísa, ambos de tradição medieval. Abelardo I é um representante da burguesia ascendente da época que alia seu oportunismo à crise da Bolsa de Valores de Nova Iorque, de 1929. Isso permite-lhe todo tipo de especulação: ''com o café, com a indústria etc. A caracterização de Abelardo I como o "Rei da Vela" é extremamente irônica, pois ele fabrica e vende velas.
Abelardo I torna-se, então, o símbolo da exploração às custas da pobreza e das superstições populares. Como personagem, ele denuncia a invasão do capital estrangeiro; daí a irônica consideração sobre "a chave milagrosa da fortuna". Seus devedores se apresentam, na peça, dentro de uma jaula. Acontece uma cena em que são examinadas as contas dos clientes, dando idéia do funcionamento do escritório após uma cena que entra Heloísa de Lesbos, noiva de Abelardo I e como o próprio nome indica, tem tendências homossexuais.
Abelardo e Heloísa, nomes escolhidos por Oswald de Andrade, são dois famosos amantes da Idade Média, daí um tom de ironia na peça teatral.
Heloísa representa a ruína da classe fazendeira. Seu pai, coronel latifundiário, vai à falência, num plano em que predomina a perversão e o vício, símbolos de uma classe social em decadência.
Abelardo I e Heloísa casam-se. Heloísa casa-se por interesse e Abelardo I sabia disso, mas não se sente atraiçoado porque também vê vantagens nessa união. A aliança de Abelardo e Heloísa pode assim, representar a fusão de duas classes sociais corrompidas pelo sistema capitalista.
Surge na cena um intelectual chamado Pinote, que o autor utiliza para demonstrar a relação dos intelectuais e dos artistas com o poder. Na realidade, ou o artista deveria comprometer-se com o social ou, como o personagem Pinote, aceitar em servir aos burgueses.
Uma outra personagem vem a completar o quadro social do Brasil da época, o Mr. Jones, que simboliza o capital americano. A presença de Mr. Jones revela um país comprometido economicamente.
Logo no início do segundo ato, que agora passa-se numa ilha tropical na Baia de Guanabara, surge Heloísa e Mr. Jones em franca camaradagem amorosa. É apresentada a mãe de Heloísa, D. Cesarina que mostra-se bastante acessível às investidas amorosas de seu futuro genro, o Abelardo I; seu irmão homossexual, Totó Fruta-do-Conde, acaba roubando o amante da outra irmã, a Joana; restava ainda o Perdigoto, o outro irmão da moça, bêbado, jogador e fascista que planejava organizar uma "milícia patriótica, para combater os colonos que estavam ficando incontroláveis", idéia que muito interessou a Abelardo I.
O americano, Mr. Jones, interessa-se pelo chofer e D. Poloca uma velha de 60 anos aristocrata e virgem fica tentada a entregar-se a Abelardo I.
No último ato, Abelardo I é roubado por Abelardo II, seu antigo empregado. Abelardo I perde tudo o que tinha e decide suicidar-se. Antes de morrer lembra a Heloísa que ela deverá casar-se com o Abelardo II, o ladrão. Antes de morrer Abelardo I pede uma vela. Recebe uma vela das mais baratas e, agora pobre, o Rei da Vela é enterrado numa vala comum. A peça termina ao som da marcha nupcial do casamento de Abelardo II e Heloísa, simbolizando a idéia de que morre o homem e o sistema permanece. O casamento de Heloísa com Abelardo II garante que a burguesia está condenada e que os proletários tomarão o poder. A aristocracia rural e a burguesia nacional continuarão submetidas ao americano – o capital estrangeiro.
Após a morte de Abelardo I o entra em cena e fala: "Oh! Good business!"
Fonte: http://pt.shvoong.com/entertainment/plays/1658588-rei-da-vela/#ixzz1PpyJ4fsm
quinta-feira, 9 de junho de 2011
MENSAGEM DO MÊS DE JUNHO
Uma Questão de Escolha
Padre Fábio de Melo
O coração anda no compasso que pode. Amores não sabem esperar o dia amanhecer. O exemplo é simples. O filho que chora tem a certeza de que a mãe velará seu sono. A vida é pequena, mas tão grande nestes espaços que aos cuidados pertencem. Joelhos esfolados são representações das dores do mundo. A mãe sabe disso. O filho, não. Aprenderá mais tarde, quando pela força do tempo que nos leva, ele precisará cuidar dos joelhos dos seus pequenos. O ciclo da história nos direciona para que não nos percamos das funções. São as regras da vida. E o melhor é obedecê-las. Tenho pensado muito no valor dos pequenos gestos e suas repercussões. Não há mágica que possa nos salvar do absurdo. O jeito é descobrir esta migalha de vida que sob as realidades insiste em permanecer. São exercícios simples... Retire a poeira de um móvel e o mundo ficará mais limpo por causa de você. É sensato pensar assim. Destrua o poder de uma calúnia, vedando a boca que tem ânsia de dizer o que a cabeça ainda não sabe, e alguém deixará de sofrer por causa de seu silêncio. Nestas estradas de tantos rostos desconhecidos é sempre bom que deixemos um espaço reservado para a calma. Preconceitos são filhos de nossos olhares apressados. O melhor é ir devagar. Que cada um cuide do que vê. Que cada um cuide do que diz. A razão é simples: o Reino de Deus pode começar ou terminar, na palavra que que escolhemos dizer. É simples...
Padre Fábio de Melo
O coração anda no compasso que pode. Amores não sabem esperar o dia amanhecer. O exemplo é simples. O filho que chora tem a certeza de que a mãe velará seu sono. A vida é pequena, mas tão grande nestes espaços que aos cuidados pertencem. Joelhos esfolados são representações das dores do mundo. A mãe sabe disso. O filho, não. Aprenderá mais tarde, quando pela força do tempo que nos leva, ele precisará cuidar dos joelhos dos seus pequenos. O ciclo da história nos direciona para que não nos percamos das funções. São as regras da vida. E o melhor é obedecê-las. Tenho pensado muito no valor dos pequenos gestos e suas repercussões. Não há mágica que possa nos salvar do absurdo. O jeito é descobrir esta migalha de vida que sob as realidades insiste em permanecer. São exercícios simples... Retire a poeira de um móvel e o mundo ficará mais limpo por causa de você. É sensato pensar assim. Destrua o poder de uma calúnia, vedando a boca que tem ânsia de dizer o que a cabeça ainda não sabe, e alguém deixará de sofrer por causa de seu silêncio. Nestas estradas de tantos rostos desconhecidos é sempre bom que deixemos um espaço reservado para a calma. Preconceitos são filhos de nossos olhares apressados. O melhor é ir devagar. Que cada um cuide do que vê. Que cada um cuide do que diz. A razão é simples: o Reino de Deus pode começar ou terminar, na palavra que que escolhemos dizer. É simples...
sexta-feira, 20 de maio de 2011
AGRESSÓES DO HOMEM, REAÇÕES DA NATUREZA
Nos dias 17, 18 E 19, a Biblioteca "Ana Oliveira", na coordenação da Professora Marly Augusto Moreira, desenvolveu juntamente com as professoras Luzia Reis (Geografia), Francyléia (Língua Portuguesa), Luciana (Sociologia), Semiramis Libonate (História) e Fátima Espineli(Sala de Informática)uma ação pela vida, tendo como centro o tema da Campanha da Fraternidade 2011 - FRATERNIDADE E A VIDA NO PLANETA. A tonica da palestra proferida pela professora Marly foi sobre Ecologia Humana e as turma envolvidas foram 1º ano C, 1º ano D e o 3º ano, do turno da tarde.
Mesmo com o ar condicionado quebrado, os alunos começaram a atividade com alguns minutos de relaxamento escutando o CD "Maravilhoso Mundo da Natureza", logo após fizemos alguns registro das emoções e a palestra. Os alunos também assistiram aos vídeos sobre a CF 2011 e do músico Wilson Melo com a música "Falta Pouco pra Acabar". A professora de Sociologia, Luciana, troxe o vídeo sobre a devastação da natureza, com a música de Luiz Gonzaga "Xote Ecológico". E a professora Francyléa está trabalhando com os alunos na sala de informática desenvolvendo ações sobre a linguagem verbal e não verbal dentro do tema da Ecologia Humana.
As estagiárias do curso de Biologia da Universidade Federal do Pará e da UVA contribuíram com a palestra sobre "A violência do Patrimônio Público".
Agora, os alunos farão trabalhos relacionados com os temas e realizarão no dia 06 de junho uma exposição em comemoração ao Dia do Meio Ambiente.
Confira as fotos:

Professora Marly proferindo palestra sobre Ecologia Humana

Professora Luciana e a música de Luiz Gonzaga

Professora Luciana e a turma do convênio.

1º Ano D compartilhando o texto

1º C

3º Ano

Alunas estagiárias do curso de Biologia

Alunos do 1º C e profª Luzia Reis

Alunos do 1º D

Convênio





Mesmo com o ar condicionado quebrado, os alunos começaram a atividade com alguns minutos de relaxamento escutando o CD "Maravilhoso Mundo da Natureza", logo após fizemos alguns registro das emoções e a palestra. Os alunos também assistiram aos vídeos sobre a CF 2011 e do músico Wilson Melo com a música "Falta Pouco pra Acabar". A professora de Sociologia, Luciana, troxe o vídeo sobre a devastação da natureza, com a música de Luiz Gonzaga "Xote Ecológico". E a professora Francyléa está trabalhando com os alunos na sala de informática desenvolvendo ações sobre a linguagem verbal e não verbal dentro do tema da Ecologia Humana.
As estagiárias do curso de Biologia da Universidade Federal do Pará e da UVA contribuíram com a palestra sobre "A violência do Patrimônio Público".
Agora, os alunos farão trabalhos relacionados com os temas e realizarão no dia 06 de junho uma exposição em comemoração ao Dia do Meio Ambiente.
Confira as fotos:
Professora Marly proferindo palestra sobre Ecologia Humana

Professora Luciana e a música de Luiz Gonzaga

Professora Luciana e a turma do convênio.
1º Ano D compartilhando o texto
1º C

3º Ano
Alunas estagiárias do curso de Biologia
Alunos do 1º C e profª Luzia Reis
Alunos do 1º D

Convênio

domingo, 15 de maio de 2011
DEVEMOS REFLETIR SOBRE A DESCONSTRUÇÃO DA VIOLÊNCIA
Homilia de Dom Erwin Kräutler na Missa da 49ª da AG da CNBB
prelaziadoxingu.com.br
Irmãs e irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo,
Caríssimos irmãos Bispos do Brasil e participantes da Assembleia Geral da CNBB,
O Evangelho de São João não fala em "milagres". Fala em "sinais" e são sete que apresenta 1. A finalidade principal dos sinais é despertar e corroborar a fé em Jesus, o Filho de Deus. Como os sinais, também a Fé é "obra de Deus" (Jo 6,29)! Ela não é imposta, mas requer a decisão pessoal de comprometer-se com Jesus, o Cristo. Há diversas reações ao convite, à "obra de Deus". Em Caná da Galiléia Jesus "manifestou sua glória e os seus discípulos creram nele" (Jo 2,11). Mais tarde, quando multiplica os pães e caminha sobre o mar a resposta já não é tão cristalina e direta como em Caná ou na cura do filho do funcionário real que "creu, ele e todos da sua casa" (Jo 4,53).
Jesus sacia milhares de pessoas (Jo 6,1-15). Na sinagoga de Cafarnaum, explica mais tarde este sinal. Insiste que os discípulos se esforcem "não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna" (v. 27). Não se trata de "espiritualizar" as necessidades elementares da pessoa humana. Como ninguém sobrevive por muito tempo sem comer, assim os discípulos precisam alimentar-se do "Pão da Vida" (v. 48). A afirmação "quem come minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna" (v. 54) gera espanto na sinagoga. São palavras intoleráveis para os ouvidos dos judeus. E a reação não tarda. "Muitos dos seus discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele" (v. 66). Jesus percebe a crise dos Doze e - em tom provocador - exige uma clara tomada de posição, pois crer significa "aceitar" não só a Palavra, mas também o Corpo entregue e o Sangue derramado do Senhor: "Vós também quereis ir embora?" (v. 67). E Simão Pedro faz sua profissão solene de fé: "Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras e vida eterna e nós cremos e reconhecemos que és o Santo de Deus" (vv. 68-69).
Jesus se refugia para a montanha, porque a multidão, uma vez saciada, quer "proclamá-lo rei" (V. 15). Já é noite. Os discípulos estão no barco e remam penosamente contra a corrente. Aí, Jesus vem ao seu encontro, andando por sobre a água. "Ficaram com medo!" diz o Evangelho. Sim, com medo! O medo, quando invade o coração, gera angústia, abala o nosso ser até os alicerces, faz-nos gritar por socorro. Exatamente nesta situação-limite os discípulos escutam a voz de Jesus que os tranquiliza: "Sou eu. Não tenhais medo!" (v. 20). Crer na presença de Jesus expulsa o medo. Fé e medo são incompatíveis. A fé dá coragem, o medo paralisa. Deus é "Imma nu 'El" - "Deus conosco" (Mt 21,23; Is 7,14). Crer é viver na proximidade de Deus, desfrutar da intimidade com Deus, ter uma experiência viva de Deus. Crer é "andar com Deus" (Gn 5,22.24; Gn 6,9). A Josué, sucessor de Moisés, Deus promete: "Não tenhas medo, não te apavores, pois o Senhor, teu Deus, estará contigo por onde quer que andes" (Js 1,9). Noite escura, águas revoltas, ventos impetuosos, tempestade de raios, ondas violentas, pânico a bordo, o barco ameaçando naufragar! Em meio a todo esse pandemônio escutamos a voz do Senhor "Sou eu. Não tenhais medo!" Cessa a fúria do vento, o mar bravio se acalma. O Senhor dissipa a escuridão da noite. A aurora desponta. "Sou eu. Não tenhais medo!" É Páscoa: a Vida venceu a morte! A graça é mais forte do que o pecado. O Amor e a Paz triunfam sobre o ódio e a guerra, exterminam a violência e as injustiças.
Mas, será que é mesmo Páscoa? Rompeu realmente a aurora do dia da Vitória, da Libertação da casa da escravidão? Será que a Páscoa que celebramos não é apenas uma utopia que acalentamos, um sonho que sonhamos? As cruzes não continuam erguidas pelo mundo afora? Não estão presentes em cada esquina, ao longo das estradas, à beira de cada rio, lago ou igarapé de nosso Brasil? Não estão pregados nelas homens e mulheres, considerados "supérfluos", "descartáveis" (cf. DAp 65) porque não se enquadram num sistema que faz do lucro a sua única mola mestra? Não continuam pregados na cruz os indígenas: violentados e assassinados, expulsos ou fraudados de suas terras ancestrais, reduzidos a párias da sociedade, enxotados como animais, tratados como vagabundos de beira de estrada, ou então confinados em verdadeiros currais humanos, sem mínimas condições de sobrevivência física e muito menos cultural? Não estão pregadas nestas cruzes as vítimas do tráfico humano que se alastra pela Amazônia, as meninas e os meninos aliciados e iludidos por redes nacionais e internacionais de prostituição que operam em nosso querido Estado do Pará e outros Estados do norte e nordeste? Não estão condenadas a morrer na cruz milhares de famílias arrancadas de de seus lares, sítios e roças por projetos desenvolvimentistas que ludibriam o povo com as falsas promessas de um plano que acelera a destruição da Amazônia e faz crescer os bolsões da miséria? Que Páscoa podemos celebrar quando ouvimos dia e noite os gritos desesperados de famílias que pranteiam um irmão, uma irmã, o pai, o esposo, o filho assassinados e nada acontece com os criminosos e pistoleiros de aluguel? Que Páscoa celebramos quando vemos o nosso planeta cada vez mais ameaçado de destruição por esta geração perversa que compromete seriamente a vida de seus filhos e netos?
Irmãs e irmãos! A Páscoa ainda não é a festa de nossa chegada ao Reino Definitivo na glória. A Páscoa é a celebração da "passagem". Passagem não é ponto de chegada, é Caminho. E caminhando recordamos que Jesus anda na nossa frente. Ele é o Caminho. Por isso nunca perdemos a esperança de um mundo diferente, justo e fraterno, do Bem Viver. Ao ressuscitar Jesus, Deus deu o seu Sim irrevogável à Vida. Celebrar a Páscoa significa estar pronto para "trabalhar nas obras de Deus" (v. 28). E "a obra de Deus é que creiais naquele que ele enviou" (v. 29). Crer naquele que o Pai enviou, é comprometer-se com a Vida, é anunciar a Vida onde outros semeiam a morte. Crer é defender a Justiça e o Amor de Deus onde violência e ódio ferem a dignidade e os direitos humanos. Crer é admirar com gratidão o Lar2 que Deus criou para todos nós, cuidar dele e zelar com carinho por ele em vista das gerações que vêm depois de nós.
"Trabalhar nas obras de Deus" não pode ser um empenho superficial. Pressupõe antes uma profunda e entranhada mística, alicerçada no amor radical de Jesus "até o fim"3 (Jo 13,1). É deixar-se traspassar pelo "amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, Senhor nosso" (Ro 8,39), é contemplar o seu Sangue derramado, "que é o amor incorruptível"4 e seu Corpo entregue, alimento que nos sustenta e nos dá coragem enquanto peregrinamos neste mundo. Amém.
Aparecida, 9 de maio de 2011
Erwin Kräutler, Bispo do Xingu
prelaziadoxingu.com.br
Irmãs e irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo,
Caríssimos irmãos Bispos do Brasil e participantes da Assembleia Geral da CNBB,
O Evangelho de São João não fala em "milagres". Fala em "sinais" e são sete que apresenta 1. A finalidade principal dos sinais é despertar e corroborar a fé em Jesus, o Filho de Deus. Como os sinais, também a Fé é "obra de Deus" (Jo 6,29)! Ela não é imposta, mas requer a decisão pessoal de comprometer-se com Jesus, o Cristo. Há diversas reações ao convite, à "obra de Deus". Em Caná da Galiléia Jesus "manifestou sua glória e os seus discípulos creram nele" (Jo 2,11). Mais tarde, quando multiplica os pães e caminha sobre o mar a resposta já não é tão cristalina e direta como em Caná ou na cura do filho do funcionário real que "creu, ele e todos da sua casa" (Jo 4,53).
Jesus sacia milhares de pessoas (Jo 6,1-15). Na sinagoga de Cafarnaum, explica mais tarde este sinal. Insiste que os discípulos se esforcem "não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna" (v. 27). Não se trata de "espiritualizar" as necessidades elementares da pessoa humana. Como ninguém sobrevive por muito tempo sem comer, assim os discípulos precisam alimentar-se do "Pão da Vida" (v. 48). A afirmação "quem come minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna" (v. 54) gera espanto na sinagoga. São palavras intoleráveis para os ouvidos dos judeus. E a reação não tarda. "Muitos dos seus discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele" (v. 66). Jesus percebe a crise dos Doze e - em tom provocador - exige uma clara tomada de posição, pois crer significa "aceitar" não só a Palavra, mas também o Corpo entregue e o Sangue derramado do Senhor: "Vós também quereis ir embora?" (v. 67). E Simão Pedro faz sua profissão solene de fé: "Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras e vida eterna e nós cremos e reconhecemos que és o Santo de Deus" (vv. 68-69).
Jesus se refugia para a montanha, porque a multidão, uma vez saciada, quer "proclamá-lo rei" (V. 15). Já é noite. Os discípulos estão no barco e remam penosamente contra a corrente. Aí, Jesus vem ao seu encontro, andando por sobre a água. "Ficaram com medo!" diz o Evangelho. Sim, com medo! O medo, quando invade o coração, gera angústia, abala o nosso ser até os alicerces, faz-nos gritar por socorro. Exatamente nesta situação-limite os discípulos escutam a voz de Jesus que os tranquiliza: "Sou eu. Não tenhais medo!" (v. 20). Crer na presença de Jesus expulsa o medo. Fé e medo são incompatíveis. A fé dá coragem, o medo paralisa. Deus é "Imma nu 'El" - "Deus conosco" (Mt 21,23; Is 7,14). Crer é viver na proximidade de Deus, desfrutar da intimidade com Deus, ter uma experiência viva de Deus. Crer é "andar com Deus" (Gn 5,22.24; Gn 6,9). A Josué, sucessor de Moisés, Deus promete: "Não tenhas medo, não te apavores, pois o Senhor, teu Deus, estará contigo por onde quer que andes" (Js 1,9). Noite escura, águas revoltas, ventos impetuosos, tempestade de raios, ondas violentas, pânico a bordo, o barco ameaçando naufragar! Em meio a todo esse pandemônio escutamos a voz do Senhor "Sou eu. Não tenhais medo!" Cessa a fúria do vento, o mar bravio se acalma. O Senhor dissipa a escuridão da noite. A aurora desponta. "Sou eu. Não tenhais medo!" É Páscoa: a Vida venceu a morte! A graça é mais forte do que o pecado. O Amor e a Paz triunfam sobre o ódio e a guerra, exterminam a violência e as injustiças.
Mas, será que é mesmo Páscoa? Rompeu realmente a aurora do dia da Vitória, da Libertação da casa da escravidão? Será que a Páscoa que celebramos não é apenas uma utopia que acalentamos, um sonho que sonhamos? As cruzes não continuam erguidas pelo mundo afora? Não estão presentes em cada esquina, ao longo das estradas, à beira de cada rio, lago ou igarapé de nosso Brasil? Não estão pregados nelas homens e mulheres, considerados "supérfluos", "descartáveis" (cf. DAp 65) porque não se enquadram num sistema que faz do lucro a sua única mola mestra? Não continuam pregados na cruz os indígenas: violentados e assassinados, expulsos ou fraudados de suas terras ancestrais, reduzidos a párias da sociedade, enxotados como animais, tratados como vagabundos de beira de estrada, ou então confinados em verdadeiros currais humanos, sem mínimas condições de sobrevivência física e muito menos cultural? Não estão pregadas nestas cruzes as vítimas do tráfico humano que se alastra pela Amazônia, as meninas e os meninos aliciados e iludidos por redes nacionais e internacionais de prostituição que operam em nosso querido Estado do Pará e outros Estados do norte e nordeste? Não estão condenadas a morrer na cruz milhares de famílias arrancadas de de seus lares, sítios e roças por projetos desenvolvimentistas que ludibriam o povo com as falsas promessas de um plano que acelera a destruição da Amazônia e faz crescer os bolsões da miséria? Que Páscoa podemos celebrar quando ouvimos dia e noite os gritos desesperados de famílias que pranteiam um irmão, uma irmã, o pai, o esposo, o filho assassinados e nada acontece com os criminosos e pistoleiros de aluguel? Que Páscoa celebramos quando vemos o nosso planeta cada vez mais ameaçado de destruição por esta geração perversa que compromete seriamente a vida de seus filhos e netos?
Irmãs e irmãos! A Páscoa ainda não é a festa de nossa chegada ao Reino Definitivo na glória. A Páscoa é a celebração da "passagem". Passagem não é ponto de chegada, é Caminho. E caminhando recordamos que Jesus anda na nossa frente. Ele é o Caminho. Por isso nunca perdemos a esperança de um mundo diferente, justo e fraterno, do Bem Viver. Ao ressuscitar Jesus, Deus deu o seu Sim irrevogável à Vida. Celebrar a Páscoa significa estar pronto para "trabalhar nas obras de Deus" (v. 28). E "a obra de Deus é que creiais naquele que ele enviou" (v. 29). Crer naquele que o Pai enviou, é comprometer-se com a Vida, é anunciar a Vida onde outros semeiam a morte. Crer é defender a Justiça e o Amor de Deus onde violência e ódio ferem a dignidade e os direitos humanos. Crer é admirar com gratidão o Lar2 que Deus criou para todos nós, cuidar dele e zelar com carinho por ele em vista das gerações que vêm depois de nós.
"Trabalhar nas obras de Deus" não pode ser um empenho superficial. Pressupõe antes uma profunda e entranhada mística, alicerçada no amor radical de Jesus "até o fim"3 (Jo 13,1). É deixar-se traspassar pelo "amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, Senhor nosso" (Ro 8,39), é contemplar o seu Sangue derramado, "que é o amor incorruptível"4 e seu Corpo entregue, alimento que nos sustenta e nos dá coragem enquanto peregrinamos neste mundo. Amém.
Aparecida, 9 de maio de 2011
Erwin Kräutler, Bispo do Xingu
DESCONSTRUÇÃO DA VIOLÊNCIA
QUANDO A DENÚNCIA VIRA VIOLÊNCIA
Dom José Luiz Ascona contra a prostituição infantil no Marajó
Diário do Pará
09-Feb-2009
Seis horas de uma quinta-feira chuvosa no município de Soure, no Marajó. Na principal igreja do município, o bispo Dom Luiz Azcona mantém os olhos fixos numa imagem de Jesus Cristo que fica atrás do altar da igreja. Atrás dele, espalhados nos bancos da capela, estão menos de dez fiéis. Dom Azcona abre uma Bíblia e lê em silêncio durante vários minutos. Depois levanta e vai se preparar para mais uma celebração. Às 6h30, início da cerimônia, já são quase 30 fiéis. Até o final da missa, passarão de 50. É uma celebração normal, a não ser quando chega o momento do sermão de Dom Azcona. Aproveitando que o dia em questão era o dia de Santa Agda, que teria morrido virgem em nome da fé, Dom Luiz Azcona inicia uma pregação virulenta contra a exploração sexual de menores no Marajó.
“As nossas meninas e meninos estão sendo criados como animais de estimação que podem ser comprados e vendidos. Essa é uma realidade totalmente contrária ao que nos ensina Jesus. Quando uma sociedade como a do Pará não tem forças para defender suas crianças e adolescentes, então essa é uma sociedade que não merece viver. Merece morrer, porque não tem mais futuro. Quando uma sociedade fica de braços cruzados na compra e venda de seres humanos, o posicionamento desse grupo faz com que ele deixe de ser humano e se torne menos que animais”.
Ao longo da pregação, Dom Azcona se refere pelo menos três vezes à CPI da Pedofilia que está em andamento em Belém. CPI instalada após uma série de denúncias do bispo sobre essa prática nas comunidades ribeirinhas do Marajó e que vem ganhando, aos poucos, contornos que mostram o envolvimento de pessoas influentes e poderosas no Estado. Segundo o deputado Arnaldo Jordy, relator da Comissão Parlamentar de Inquérito, mais de mil denúncias já foram feitas. Mesmo que parte delas possa não ser verdadeira, ainda assim é um número expressivo.
Por conta das denúncias, Dom Azcona foi ameaçado de morte. Mudou pouco sua rotina pessoal. Embora não abra mais a igreja todos os dias às 5h, como fazia antes, não deixa de rezar diariamente a missa e nem de atender aos que lhe procuram logo depois da celebração. São pedidos de ajuda espiritual e financeira. Gente que pede apoio e dinheiro.
O bispo também não se furta de ir sempre que pode aos nove municípios do Marajó cujas paróquias estão sob sua responsabilidade. “Depois de meu depoimento à CPI não recebi mais ameaças, mas elas começaram em 2007, quando começamos a trabalhar na detecção da presença do tráfico humano do Marajó para as Guianas. O primeiro alerta me foi dado por um membro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados, em Brasília. Segundo ele, eu havia passado a fazer parte de uma lista de marcados para morrer”, diz o bispo. Logo depois, Dom Azcona teve a confirmação de que integrava mesmo uma lista de marcados para morrer, junto a mais 15 pessoas. E no dia 9 de dezembro de 2007 a mesma pessoa que lhe alertara sobre as ameaças morreu num misterioso acidente de carro. “Foi esmagado por um caminhão. Disseram que foi um acidente, mas eu tenho certeza de que ele foi assassinado”, acredita.
Se não mudou os hábitos, a possibilidade de ser mais uma vítima mudou sua filosofia de vida. “Não há um dia sequer em que não penso na morte. Esse é um pensamento que se tornou constante. Ao pegar o barco para Breves penso que seria um local fácil para me matarem. Quando estou no interior crismando, dentro daquelas matas e nos rios pequenos, imagino que uma voadeira seria fácil de me alcançar e me eliminar. Penso na morte, mas não estou ansioso ou com medo. É um pensamento que até me enche de satisfação, porque se morrer será pelo Evangelho e isso é uma graça divina”.
Esse é um dos motivos para que recuse proteção pessoal. Dom Azcona não acredita que ela seja realmente eficaz. E também não quer ter sempre uma sombra perto de si. No ano passado foi a Aparecida do Norte para um encontro e sem que soubesse puseram dois homens para cuidar da segurança dele. Estranhou.
Dom Azcona também não consegue se imaginar na pele de Dom Erwin Krautler, bispo do Xingu, que tem sempre um segurança por perto. “O que peço sempre é que Deus não me acovarde, que não me faça voltar atrás. Mas peço também que ele não me faça sentir um super-homem, um herói, mas sim me faça sentir como um cristão que está defendendo a palavra divina”.
Abra o olho: sua filha pode estar no esquema
Há poucas semanas, um homem morreu num acidente de moto em Soure. Seria apenas um acidente fatal, mas por trás dele revela-se um pouco da situação de exploração sexual de adolescentes no município. O homem, casado, estava levando uma garota de 14 anos para a praia do Pesqueiro, para consumar o programa fechado minutos antes. É uma prática comum em Soure e em outros municípios do Marajó, embora às vezes não seja tão explícita assim. À noite, nas ruas pouco movimentadas e escuras de Soure, há um crescente comércio de sexo com menores.
“Elas são agenciadas por um grupo de homossexuais que ficam em duas esquinas das ruas principais daqui de Soure”, diz uma comerciante que separou do marido depois de ter descoberto que ele continuamente fazia uso dos serviços sexuais de garotas de programa de Soure.
O bispo Dom Azcona diz que alguns meses atrás um rapaz foi flagrado em Soure com fotos de menores que seriam prostituídas para turistas estrangeiros. “Também não é incomum que barquinhos levem meninas para hotéis e pousadas para satisfazer aos estrangeiros hospedados”, diz Dom Azcona. Em Salvaterra, há boates e dancings que aceitam a entrada de adolescentes e os programas são agendados e feitos por lá mesmo. Mas também há locais mais escondidos e freqüentados por poucos onde a prostituição é comum. “Gente poderosa está por trás disso”, acusa o bispo.
Dom José Luiz Ascona contra a prostituição infantil no Marajó
Diário do Pará
09-Feb-2009
Seis horas de uma quinta-feira chuvosa no município de Soure, no Marajó. Na principal igreja do município, o bispo Dom Luiz Azcona mantém os olhos fixos numa imagem de Jesus Cristo que fica atrás do altar da igreja. Atrás dele, espalhados nos bancos da capela, estão menos de dez fiéis. Dom Azcona abre uma Bíblia e lê em silêncio durante vários minutos. Depois levanta e vai se preparar para mais uma celebração. Às 6h30, início da cerimônia, já são quase 30 fiéis. Até o final da missa, passarão de 50. É uma celebração normal, a não ser quando chega o momento do sermão de Dom Azcona. Aproveitando que o dia em questão era o dia de Santa Agda, que teria morrido virgem em nome da fé, Dom Luiz Azcona inicia uma pregação virulenta contra a exploração sexual de menores no Marajó.
“As nossas meninas e meninos estão sendo criados como animais de estimação que podem ser comprados e vendidos. Essa é uma realidade totalmente contrária ao que nos ensina Jesus. Quando uma sociedade como a do Pará não tem forças para defender suas crianças e adolescentes, então essa é uma sociedade que não merece viver. Merece morrer, porque não tem mais futuro. Quando uma sociedade fica de braços cruzados na compra e venda de seres humanos, o posicionamento desse grupo faz com que ele deixe de ser humano e se torne menos que animais”.
Ao longo da pregação, Dom Azcona se refere pelo menos três vezes à CPI da Pedofilia que está em andamento em Belém. CPI instalada após uma série de denúncias do bispo sobre essa prática nas comunidades ribeirinhas do Marajó e que vem ganhando, aos poucos, contornos que mostram o envolvimento de pessoas influentes e poderosas no Estado. Segundo o deputado Arnaldo Jordy, relator da Comissão Parlamentar de Inquérito, mais de mil denúncias já foram feitas. Mesmo que parte delas possa não ser verdadeira, ainda assim é um número expressivo.
Por conta das denúncias, Dom Azcona foi ameaçado de morte. Mudou pouco sua rotina pessoal. Embora não abra mais a igreja todos os dias às 5h, como fazia antes, não deixa de rezar diariamente a missa e nem de atender aos que lhe procuram logo depois da celebração. São pedidos de ajuda espiritual e financeira. Gente que pede apoio e dinheiro.
O bispo também não se furta de ir sempre que pode aos nove municípios do Marajó cujas paróquias estão sob sua responsabilidade. “Depois de meu depoimento à CPI não recebi mais ameaças, mas elas começaram em 2007, quando começamos a trabalhar na detecção da presença do tráfico humano do Marajó para as Guianas. O primeiro alerta me foi dado por um membro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados, em Brasília. Segundo ele, eu havia passado a fazer parte de uma lista de marcados para morrer”, diz o bispo. Logo depois, Dom Azcona teve a confirmação de que integrava mesmo uma lista de marcados para morrer, junto a mais 15 pessoas. E no dia 9 de dezembro de 2007 a mesma pessoa que lhe alertara sobre as ameaças morreu num misterioso acidente de carro. “Foi esmagado por um caminhão. Disseram que foi um acidente, mas eu tenho certeza de que ele foi assassinado”, acredita.
Se não mudou os hábitos, a possibilidade de ser mais uma vítima mudou sua filosofia de vida. “Não há um dia sequer em que não penso na morte. Esse é um pensamento que se tornou constante. Ao pegar o barco para Breves penso que seria um local fácil para me matarem. Quando estou no interior crismando, dentro daquelas matas e nos rios pequenos, imagino que uma voadeira seria fácil de me alcançar e me eliminar. Penso na morte, mas não estou ansioso ou com medo. É um pensamento que até me enche de satisfação, porque se morrer será pelo Evangelho e isso é uma graça divina”.
Esse é um dos motivos para que recuse proteção pessoal. Dom Azcona não acredita que ela seja realmente eficaz. E também não quer ter sempre uma sombra perto de si. No ano passado foi a Aparecida do Norte para um encontro e sem que soubesse puseram dois homens para cuidar da segurança dele. Estranhou.
Dom Azcona também não consegue se imaginar na pele de Dom Erwin Krautler, bispo do Xingu, que tem sempre um segurança por perto. “O que peço sempre é que Deus não me acovarde, que não me faça voltar atrás. Mas peço também que ele não me faça sentir um super-homem, um herói, mas sim me faça sentir como um cristão que está defendendo a palavra divina”.
Abra o olho: sua filha pode estar no esquema
Há poucas semanas, um homem morreu num acidente de moto em Soure. Seria apenas um acidente fatal, mas por trás dele revela-se um pouco da situação de exploração sexual de adolescentes no município. O homem, casado, estava levando uma garota de 14 anos para a praia do Pesqueiro, para consumar o programa fechado minutos antes. É uma prática comum em Soure e em outros municípios do Marajó, embora às vezes não seja tão explícita assim. À noite, nas ruas pouco movimentadas e escuras de Soure, há um crescente comércio de sexo com menores.
“Elas são agenciadas por um grupo de homossexuais que ficam em duas esquinas das ruas principais daqui de Soure”, diz uma comerciante que separou do marido depois de ter descoberto que ele continuamente fazia uso dos serviços sexuais de garotas de programa de Soure.
O bispo Dom Azcona diz que alguns meses atrás um rapaz foi flagrado em Soure com fotos de menores que seriam prostituídas para turistas estrangeiros. “Também não é incomum que barquinhos levem meninas para hotéis e pousadas para satisfazer aos estrangeiros hospedados”, diz Dom Azcona. Em Salvaterra, há boates e dancings que aceitam a entrada de adolescentes e os programas são agendados e feitos por lá mesmo. Mas também há locais mais escondidos e freqüentados por poucos onde a prostituição é comum. “Gente poderosa está por trás disso”, acusa o bispo.
Assinar:
Postagens (Atom)